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O homem que contava histórias

Lá estava Lúcia. Não importava o tempo que passasse, ela nunca mudaria. Estava observando as estrelas, sentada em uma colina, ao lado do Sr. Digory. As estrelas da verdadeira Nárnia eram ainda mais fascinantes que as da antiga. “Não parecem estrelas,” pensou. “Parecem os olhos das crianças, refletem serenidade.”

Então observou seu velho amigo, Sr. Digory. Ele também não mudara nada. Exceto na forma de tratamento. Agora que estavam na verdadeira Nárnia, não existiam professores ou mestres, ou qualquer outro título. Ninguém precisava aprender com outras pessoas, porque o próprio Aslam lhes ensinava tudo que quisessem.

Lúcia se lembrou de uma pergunta, que há muito tempo queria fazer ao amigo. E quebrou o silêncio.

- Sr. Digory, - fez uma breve pausa; como é que o senhor, que desde criança sempre conheceu o Bosque entre Dois Mundos, nunca se interessou em visitar outros lugares?

- Ah, minha menina! Em toda Nárnia, só poderia imaginar uma pergunta dessas saindo da sua boca. – e sorriu. Eu era uma criança muito curiosa, sabia? Realmente, certa vez não resisti, e com algum custo consegui encontrar o Bosque. Mas dessa vez, havia ido sozinho.

- E encontrou ainda outro mundo?

- Sim, Lúcia. Encontrei um mundo assustador. Era exatamente como nosso mundo, com exceção na forma com que o tempo passava. Não existia um padrão para seu tempo. Quando estávamos tristes, ele se arrastava, como se pesasse toneladas, mas, ao nos alegrarmos, passava tão rápido que nem podíamos reparar.

- Por quanto tempo o senhor ficou lá?

- Uma vida inteira! Exatamente como você e seus irmãos, na primeira vez que chegaram à antiga Nárnia. É claro que quando voltei para casa, nem um minuto havia se passado.

“Assim como você, que em casa era apenas Lúcia e em Nárnia era a Rainha Lúcia, deixei de ser apenas o Digory. Lá, me chamavam de Clive. Eu cresci, conheci pessoas maravilhosas e escrevi livros. Certo dia, pensei ter entrado em meu escritório, mas, ao passar pela porta, voltei para minha casa, como menino.”

- O senhor não teve mais notícias daquele mundo?

- Não, Lucia. Até um belo dia, em que caminhava aqui, na verdadeira Nárnia, com Aslam. Ele me disse que, agora que tinha visto tantas coisas maravilhosas, deveria voltar para aquele mundo onde meu nome era Clive, para contar às crianças as histórias de Nárnia. Ele tocou seu focinho em minha testa e lá estava eu, agora como Clive S. Lewis, com meus 50 anos, entrando no escritório. Sentei à mesa e comecei a escrever. Contei tudo: sobre Nárnia, desde seus primeiros dias, e sobre você e outras crianças que vieram para cá.

- Tudo?

- Tudo que sabia. Mas queria voltar logo para cá, então escrevi o mais depressa que pude. Agora vejo que poderia ter contado ainda mais. E de nada adiantou minha ansiedade, pois Aslam esperou até meu último dia como Clive para que me trouxesse de volta. Quando Aslam viu meu arrependimento por não ter escrito mais detalhes, Ele me disse que aquilo era o suficiente. E me consolou, prometendo que ainda décadas após minha partida, as crianças leriam minhas crônicas.




Conto feito no fim do ano passado, numa tentativa de fazer uma homenagem a C. S Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia, no aniversário de 110 anos de seu nascimento.

Obrigada por fazer a ilustração, Natan =)



ABRA A PORTA DO GUARDA-ROUPA

“ – Aqui é a terra de Nárnia: tudo que está entre o lampião e o grande castelo de Cair Parável, nos Mares Orientais (...)”. Foi assim que Sr.Tumnus descreveu Nárnia a Lúcia. Certamente, uma descrição superficial diante de tudo o que ela (e outras crianças) viveram, vivem e viverão neste mundo de fantasia.

Escrito em 1949, O leão, a feiticeira e o guarda-roupa dá início à série que levaria milhões de jovens (de espírito) a uma viagem por um mundo repleto de seres fantásticos, batalhas épicas, belas paisagens e grandes reis. Logo depois viriam mais seis crônicas, cada uma escrita de uma forma peculiar, com o estilo único de Clive Staples Lewis, ou apenas Jack, como gostava de ser chamado.

Em Nárnia, nada tem explicação, nem mesmo o tempo segue as regras do mundo real. Um lugar onde somente os mais puros corações podem enxergar nas coisas mais simples, infinitas possibilidades. E onde todos têm a chance de recomeçar.

Jack buscou transmitir através de sua obra as experiências passadas na sua vida entre o ateísmo e o teísmo (futuramente se tornaria cristão, o mais relutante deles, segundo David Dowing). É relevante falar um pouco do autor, já que sua vida e sua história vão além de uma narrativa. A religião sempre marcou a vida Lewis. A divisão da Irlanda – sua terra natal – entre católicos e anglicanos fez com que ele, logo cedo, passasse por momentos de dúvida e buscasse a felicidade onde Deus não estava. De grupos de mágicos à finalmente a Verdade. Lewis descobrira Deus. Há uma semelhança entre o Evangelho e Nárnia, talvez estabelecida com o intuito do próprio autor em transmitir de forma simples e alegórica a história de Cristo, a criação do mundo e os últimos tempos. Independente de religião, Nárnia é uma viagem fascinante, que prende o leitor da primeira à última página, que nos ensina valores e lições que valem ser transmitidas nos dias de hoje, diante da situação crítica em que o mundo se encontra. O perdão, o amor e a amizade são dons de Deus, que somente aqueles cujo coração ainda guarda a pureza de uma criança, podem sentir.

Uma leitura sob medida para os que buscam diversão, aventura e aprendizado. Seja em um cantinho de sua casa ou em comunhão com pessoas queridas, sempre haverá um lugar que, mesmo que só em pensamento, te fará lembrar de Nárnia. Se você ainda não conhece este mundo, não é preciso que viaje para longe, nem que gaste milhões para alcançá-lo dele... basta que você abra o livro e acredite, pois a porta do guarda-roupa sempre estará aberta a você.



Galera, este texto já foi publicado no blog do Davi, mas como achei legal publiquei aqui de novo :D